terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Revalida 2016 (Parte 4) – Prova Prática

Para uma melhor experiência com o blog, acesse de um computador.


Depois de passar vergonha no primeiro dia de prova, no sábado, era a hora de dar a volta por cima no domingo ou simplesmente ser reprovado.

Depois da prova, no sábado, eu fiquei desolado. E tinha que escolher entre duas opções: ficar sentindo pena de mim mesmo por ter ido mal, por não ter lido os enunciados em 3 casos diferentes e por ter perdido o foco ou usar da experiência ruim para não cometer os mesmos erros. Disse a mim mesmo que não repetiria mais aquelas mancadas que dei e que ia lutar como um bom brasileiro até o fim.

Fui dormir cedo, estava tendo um baile funk ao lado do convento e, para que eu conseguisse pegar no sono, tomei um zopiclona. Esse medicamento me derrubou e, então, apaguei. Uma noite de sono é bem importante antes de uma prova.

Tava quase largando tudo e virando um vida loka!

Acordei 4h da manhã. Acordei ansioso e já fui tomar um banho. Peguei meus cadernos e ficava olhando tudo que eu podia. Estava maluco. Isso não é hora de estudar. Parei um pouco, respirei fundo e disse a mim mesmo para manter a calma. Estava claramente desesperado.

A caminho do hospital, eu pensei nas pessoas mais importantes de minha vida, no rosto de minha filha orgulhosa de mim por ter um pai médico e, ao mesmo o tempo, a feição de decepção por eu não passar. Ao mesmo tempo que isso me animava, me trazia ainda mais pressão. É quase impossível medir o peso que sentia naquele dia, de ter de tirar uma boa nota no último dia de prova depois de ter “fracassado” no primeiro dia. Era uma pressão incalculável. Estavam todos me esperando, todos contando com meu sucesso e eu estava a um passo de perder tudo e ter uma segunda chance somente no próximo ano.

Ja podia ver as pessoas rindo de mim. Olha lá, o cara que sempre falou que passava no Revalida!
Passava o dia todo estudando... Ficou na prova prática... Burro!!! kkkk

Como explicaria isso a minha mãe, meus irmãos, aos amigos que tanto acreditavam em mim, a família de minha filha? Eu tinha que passar de todo jeito. Não tinha opção...

No hospital, a mesma turma do dia anterior. O processo seria o mesmo: nada de contato visual, nada de papel...

Fila indiana...

Novamente fomos a primeira turma...

Na porta da sala esperando o apito...

Nessa hora, eu parecia uma criança que vai comprar algo na padaria e fica repetindo a si mesmo o que deveria trazer; “cinco pães, 200 gramas de queijo... cinco pães, 200 gramas de queijo... cinco pães, 200...”. Então eu repetia mentalmente: “ler o enunciado, me apresentar à paciente, ler o enunciado, me apresentar... notificar... notificar...” e repetia essa ladainha para não esquecer enquanto esperava o apito ali em pé de cabeça baixa como um boi que está indo para o abate.

Soa o apito. A fiscal abre a porta...

200 gramas de pão, 5 queijos... não, pera.. 200 queijos de pão... 5... 200... Inri, cadê vocêêê?😱😱😱

E começa o primeiro caso.

Era um caso de cirurgia. Abdômen agudo perfurativo. O ator era péssimo. A minha tarefa era basicamente prepará-lo para uma laparotomia de emergência. Dizer se era aberta ou por vídeo e pedir os exames necessários para a cirurgia, além de indicar os medicamentos que ele precisaria naquele momento. Fui mais ou menos. Esqueci da sonda vesical e de uma idiotice que fizeram a respeito do acesso venoso central que estava mal posicionado. Sai da sala desanimado. Precisava ter feito um trabalho melhor; o caso era algo básico que eu sabia, que eu dominava e não podia ter errado nada. Fiz 6 de 10

O segundo caso

Era um caso de clínica médica, mais propriamente, neurologia. Uma mulher jovem com queixa de dor de cabeça recorrente unilateral de forte intensidade. Muito fácil. Minha tarefa era dar o diagnóstico (enxaqueca), o tratamento, como prevenir novos eventos e as orientações. Ganhava um ponto quem dissesse “não” quando a paciente pedisse tomografia. Fiz 8,5 de 10.

Um pequeno alívio.

Terceiro caso

Uma mulher de uma comunidade queria saber o que era ESF (Estratégia Saúde da Família) e eu devia dizer tudo o que sabia e sanar todas as dúvidas dela. Contou ponto dizer que não atende emergências, que atende a uma população definida e que era composta por uma equipe multidisciplinar, dentre outras coisas. Fui bem. Falei, falei, falei e acabou o assunto em poucos minutos e depois ficamos eu, a atriz, o câmera e a examinadora em silêncio por uns 4 minutos esperando o tempo acabar.

O quarto caso

Fácil, era um caso de tuberculose envolvendo a mãe amamentando e um bebê. Fiz quase 10 de 10 nesse caso.

O último caso

Esse foi o caso mais legal de toda a prova. Uma senhora de 42 anos trazia um resultado de exames hormonais de uma consulta anterior, quando havia relatado dispareunia e insônia, dentre outras queixas relacionadas. No enunciado (agora eu estava lendo todos) dizia para eu interpretar os exames. Acontece que não havia nenhuma alteração significativa, exceto pelo FSH (hormônio folículo estimulante) um pouco aumentado, o que relatei ser normal para idade (pré menopáusica, início da falência ovariana com aumento do estímulo folicular). Então olhei para a “paciente”, era uma atriz muito boa, vestindo uma blusa e um lenço que escondia o pescoço. Questionei sua atitude. Ela inicialmente desconversou, mas com minha insistência, ela expôs o pescoço, mostrando vários hematomas; haviam hematomas nos braços também (maquiagem perfeita). Na anamnese desse “novo caso” descobri que ela apanhava do marido e que pretendia cometer suicídio. Eram três diagnósticos: 1 - exame normal, 2 – violência doméstica, 3 – ameaça de suicídio (depressão). As condutas eram obvias: orientações quanto a denúncias de violência às autoridades policiais, antidepressivos/ansiolíticos, internação psiquiátrica, notificação compulsória da violência doméstica, dentre outras coisas. Se não me engano, fiz 9 de 10 nesse caso.

Um toque a quem for fazer essa prova: decore a lista de doenças de notificação compulsória, sempre cai. Outra coisa, leia sempre o enunciado antes de iniciar o atendimento, eu perdi muito ponto por esquecer; parece obvio, mas é extremamente comum esquecermos; na verdade, todo mundo esquece num dado momento.

Terminei o Revalida 2016.

Terminei a prova mais importante de minha vida.

Devo lembrar, aqui, que o resultado só sairia em um mês. Eu tinha um mês de sofrimento até que o INEP somasse todos os pontos e divulgasse a nota. Eu postei agora algumas notas depois do relato de alguns casos, mas isso eu só fiquei sabendo isso quando o INEP divulgou, ficou parecendo que o examinador falava a nota na hora, mas eles não podem revelar sua nota. Você só fica sabendo quando o INEP divulga. Ao terminar cada caso, saí da sala sem fazer ideia da nota que o avaliador havia dado. Em alguns casos, era mais de 30 itens avaliados, desde sua linguagem corporal até as condutas específicas. Tudo era examinado nessa prova. Se engana quem pensa que é só acertar o diagnóstico, é preciso ser ator, produtor, adivinho (porque muitas vezes temos que adivinhar o que eles querem), perspicaz, manter a calma, entrar no clima e, enfim, ser médico para passar nesse trem.

Saímos do hospital as 14 e fomos comer. Fiz amizade com uma galerinha de minha turma e queríamos comer um churrasco gaúcho.

Depois da prova, fomos provar um churrasco gaúcho. Muito bom!
Na foto, uma formada em Cuba e a loira é uruguaia.

Treinamento prático do Medcel. Reparem que a mesma menina que
fez o treinamento comigo estava na minha turma em POA 😊😊
Foto: divulgação.

Voltei para São Paulo no mesmo dia. No caminho, no ônibus, ficava me questionando o quanto havia sido burro em vários momentos. E, pior, ia ter que esperar um mês para ver minha nota. Haja sofrimento. E aguentar o povo me perguntando se havia ido bem e ter que dizer a verdade, que tinha sido uma bosta?! Só Deus na causa...

Ainda hoje, nos dias mais sombrios, posso ouvir aquela mulher com cara de monstro assoprando
com toda sua força aquele apito!

domingo, 29 de janeiro de 2017

Revalida 2016 (Parte 3) – Prova Prática

Para a prova pratica, eu não estudei tanto, confesso. Apenas revi meus próprios resumos que havia feito para a prova teórica e me preparei, ensaiando mentalmente, os diversos casos que poderiam ser abordados. Mentalmente?! Isso mesmo, mentalmente, pois o formato da prova pratica é totalmente diferente daquilo que vimos na teórica e envolve conhecimento médico e, principalmente, de teatro. Isso mesmo, de teatro. Penso que você, além de saber conduzir os casos, precisa ser um bom ator. Explico.


A prova pratica do Revalida segue os moldes de algumas provas práticas de residência médica, principalmente dos grandes programas brasileiros. São dois dias de exames e trata-se de uma prova que envolve simulações de atendimentos reais que pode envolver boneco, atores ou situações específicas. Na maioria das vezes são apenas atores. Tem um médico examinador que é o cara que vai te dar a nota e um câmera profissional que filmará todo o “atendimento”; essa filmagem serve para posteriores dúvidas quanto à nota, caso não concorde com a nota do examinador.

A inscrição

A inscrição iniciou as 11h da manhã e eu me inscrevi as 14h. Foi um grande erro pois o local da prova era escolhido no ato dessa segunda inscrição e, São Paulo, que é onde moro, esgotou todas as vagas em 20 minutos. Quando fui me inscrever só tinha Florianópolis, São Luiz e Porto Alegre (POA); fiquei com POA.

Porto Alegre, a cidade é bonita e as pessoas são bacanas. Tem umas loiras de tirar o fôlego

2 semanas antes da prova

Saiu o local e confirmação do certame depois de adiarem por quase um mês a data da prova. Caí num hospital militar, no horário da manhã. Odeio fazer qualquer coisa de manhã; preferia ter de fazer a tarde. Comprei minhas passagens para ir de bus. Não precisei reservar hotel porque um brother muito firmeza, que também faria a prova no mesmo local, conseguiu uma hospedagem gratuita num convento. Foi perfeito e meu único medo era de meu corpo pegar fogo ao adentrar no recinto.

5 dias para a prova

Viajei a POA de bus. No caminho, pelo fone de ouvido, ouvia os áudios que eu mesmo gravei com resumos daquilo que poderiam pedir. PS: A paisagem do Sul é simplesmente maravilhosa e fiquei encantado com Camboriú. Chego na cidade depois de 22h de viagem; estava podre de cansaço.

Cheguei na quinta a tarde em POA e me dirigi ao convento onde meu brother, André, já estava hospedado. La, fui extremamente bem recebido e, de cara, senti um clima amistoso e aconchegante. Me deram um quarto com banheiro privado com tudo o que eu precisava. Muito melhor do que qualquer hotel que já fiquei. As irmãs eram muito gentis e amistosas, durante todo o período fizeram de tudo para que nos sentíssemos bem à vontade. Nos serviam café da manhã, almoço e jantar e, se quiséssemos, ainda tinha o café da tarde. Me sentia em casa.

Hospital Militar de POA. 

No dia seguinte, pela manhã, fomos ao local da prova num Uber para medirmos a distância entre o convento e o hospital. Era perto, cerca de 20 minutos. Olhei o lugar, era enorme e já fui tentando entrar no clima.

Sexta, um dia antes da prova

16h15 - Estou escrevendo isso em tempo real. Amanhã é a prova. Eu nem sei o que fazer nesse momento, se vou estudar, se vou ver TV, se vou ver vídeos idiotas no You Tube.... Deveria estar estudando, mas estou aqui escrevendo; devo estar maluco. As pessoas estão me chamando no WhatsApp, mas vou ignorá-las. Não conseguiria teclar agora com ninguém. Queria ligar para minha filha.

Eu não aguento mais issooooooooo...👀

20h45 – Minha dúvida agora é se eu tomo ou não um calmante. Posso escolher entre Clonazepam ou Zopiclona (para dormir). Trouxe o pacote completo. Tenho medo de tomar e amanhecer alto (grogue) ao fazer merda na prova. Acho melhor tentar dormir.... Tem alguém batendo na porta do quarto, deve ser o André...

21h10 – Era o André, ele queria repassar algumas coisas, mas nem eu e ele conseguiu. Na verdade, não estou com bom pressentimento com essa prova de amanhã. Que Deus me ajude; ainda bem que estou num convento, acho que Ele vai ouvir. Tem o Inri Cristo, também, ele me ajudou na prova teórica.

Cara, acho melhor você falar diretamente com Deus

Domingo a tarde

Mano, que pânico. Fiz a prova. Nem sei o que escrever aqui nem por onde começar. Bom, vou tentar escrever o que aconteceu, ainda estou meio em pânico: Acordamos cedo e fomos para o hospital onde realizei o exame; cheguei lá com uma hora de antecedência e já corri para uma loja de conveniência ali perto para me entupir de café; foram vários copos. Meia hora antes do início, liberaram para subir ao andar onde a prova seria feita. Lá, tivemos que deixar toda e qualquer coisa que estivéssemos levando, desde celular até documentos que não fossem o RG. Só podia entrar com comida em embalagens transparentes. Feito. Depois disso, dividiram todos os participantes em turmas de 15 pessoas e colocaram-nos em uma salinha com 3 fiscais que nos explicou como seria:

- Nada de caneta.
- Somente o jaleco e estetoscópio, se fôssemos pegos com algo, era anulada imediatamente nossa participação.
- Teríamos 10 minutos para cada “atendimento”, nem um segundo a mais nem a menos.
- Não manter contato visual ou verbal com ninguém.
- Ao entrar na sala, ler o enunciado do caso. Ela explicou que dentro de cada sala há um impresso que devíamos ler, nesse impresso continha informações referente ao caso.
- Na sala teriam 3 pessoas, um ator, um câmera, que filmava tudo para posteriores dúvidas quanto a nota, e um médico examinador, que é o cara que te dá a nota.

Minha turma foi a primeira. Mano, que pânico!

O trem é bem sério. Fomos orientados a seguir uma das fiscais em fila indiana com a cabeça baixa (não podia manter contato visual com ninguém) até que fomos distribuídos 1 a 1 de frente a uma sala de avaliação; para cada candidato uma sala. Ficamos esperando o apito inicial, em pé, no corredor, com uma fiscal nos observando (sim, eles apitavam com um apito de verdade e, a partir dali, começava a contar 10 min).

Soa o apito, a fiscal abre a porta e entro no meu primeiro caso. Parece que ao adentrar naquela sala, meu cérebro ficou lá fora. Me tornei um completo burro. Esqueci tudo o que tinham me orientado (ler o enunciado) e fui direto ao atendimento. Era pediatria e uma atriz segurava um boneco no colo, simulando ser seu filho. Depois de iniciar o atendimento que lembrei do enunciado e fui ler no meio do atendimento. Ai que fui entender mais ou menos o que eles queriam.

O primeiro caso

A mãe trazia uma recém-nascido de dois ou três dias de vida com a queixa de que a criança estava estranha, molenga, não mamava direito... na mesa tinha outro impresso com a foto do bebê. A minha tarefa era olhar a foto e dar um diagnóstico. Era uma foto mal impressa, de péssima resolução e naquela hora não me veio nada a cabeça a não ser a Síndrome de Down e o Hipotireoidismo congênito. Aí a mãe me fez várias perguntas e eu enrolei como pude. Saí de lá tonto. Péssimo. Tirei 2,5 de 10.

Como eu me sentia na frente do examinador fazendo saporra de prova (tem um vidro na frente 😀)

Fui para a sala seguinte; a mesma coisa, sem contato visual e esperando o apito.

Os outros casos

Depois foi uma sutura. Muito fácil. Pergunta se fui bem!? Fui nada... estava nervoso, esqueci tudo o que sabia (e, modéstia à parte, estava bem preparado), mas fiquei muito nervoso (logo eu, o fabricante do rivotril). Não coloquei os campos estéreis, não fiz a anestesia direito, não dei o antibiótico, e dei uns pontos igual a minha cara! Um dos pontos escapou e outro rasgou. Tirei 3 de 10. Merecia menos.


O examinador estava rindo de mim. Eu podia sentir.

Depois foi um caso diferente. Eu era o médico de um banco de sangue e chegava uma senhora que havia sido chamada devido ao seu resultado ter dado alterado. Ela era HIV positivo e minha tarefa era interpretar o resultado e dar-lhe a notícia. Fui bem demais, fiz 10 pontos de 10 válidos!

Na sequência foi uma grávida de primeiro trimestre com queixa de dor de cabeça e na anamnese você tinha que descobrir que era um caso de suspeita de dengue. Tinha que definir a conduta (observação). Tirei 6.

Bom, para resumir, meu primeiro dia de prova foi péssimo. Acabamos os 5 casos do dia em pouco mais de uma hora, mas não podíamos ir embora porque tínhamos que esperar até que a turma da tarde entrasse. Ficamos dentro da salinha até as 14h.

Dentro da salinha, tinha uma menina colombiana em prantos. Ela chorava incoercivelmente. Ela disse que na hora da prova não conseguia nem falar e que travou completamente.   Outros pareciam tranquilos e no final todo mundo virou amigo. Até grupo de WhatsApp foi feito.
Eu sabia, eu estudei, eu apenas não consegui dizer nenhuma palavra.

Sai do hospital as 14 horas, não sentia fome, só tristeza. Estava inconformado em como tinha ido mal e como o INEP tinha colocado uma prova escrota daquelas. Na verdade, não estava difícil, mas foram situações bem atípicas e inesperadas.

No convento, as irmãs tentaram me animar, mas eu não conseguia fazer nada. Não sentia fome e só queria enterrar minha cara debaixo das cobertas e acordar somente quando o apocalipse zumbi tivesse começado.

Minha esperança era a segunda parte da prova prática, no domingo. Eu tinha que ir bem de todo jeito, caso contrário, by by CRM. Pois é, a ilusão de que a prova prática é facílima e que todos passam é uma grande armadilha. Essa prova foi foda, ao menos para mim

Meu corpo não pegou fogo.


Gostou? Compartilhe!




sábado, 28 de janeiro de 2017

Revalida 2016 (Parte 2) – Prova Objetiva

Nessa rápida sessão, vou expor como foi a prova do revalida 2016.


Não sabe o que disgrama é Revalida, clique aqui e descubra

A Prova Teórica desse ano foi composta de 100 questões objetivas que valiam 100 pontos e 5 questões de discursivas que valiam, somadas, 50 pontos. Ou seja, a prova teórica valeu 150 pontos.

Eu esperava tudo nessa prova. Estudei desde vacinação até critérios diagnósticos de Púrpura Trombocitopênica Trombótica (mesmo sabendo que ia esquecer em apenas um dia). Obviamente, dei muito mais ênfase a medicina de família, que é o que mais cai no Revalida. Comecei mal para caralho. Estava nervoso. Tanto que, no gabarito, errei muito as primeiras questões. 
Senhor, me fala os critérios de PTT
Senhor?
Senhor?
100... OR, volta aqui, senhor!

Ao longo da enorme prova, fui melhorando. Tinha questão que eu dava risada de tão fácil que era e ficava lembrando dos meus anjos do Medcel e Medcurso com seus mnemônicos e dicas realmente infalíveis (no final, uma homenagem aos mestres). Outras questões eu não sabia e não fazia ideia do que era. Caiu de tudo, coisas como TCE, corpo estranho no ouvido, Sífilis (sempre cai), Zika, DM descompensada, legislação, partograma (sempre cai) e muito do que, quem estuda medcurso/cel, já está cansado de saber.

Foi bem cansativo, mesmo assim terminei bem antes do horário estipulado e sai com a sensação de ter feito um bom trabalho.

Na tarde, veio a prova discursiva. 5 questões que valiam 50 pontos no total... fáceis, muito fáceis. Os temas foram: obesidade infantil, estupro, uma mulher que queria exames complexos para investigar uma simples dor de cabeça, síndrome metabólica e trauma. Uma dica: sempre cai trauma em algum momento da revalidação. Sempre!

Temas fáceis. Bastava saber o básico para acertar ao menos cinquenta por cento desse exame.

O que eles queriam com esses temas? Vou citar dois exemplos que se seguem abaixo:

Sobre a obesidade infantil, eles queriam que você soubesse diagnosticar, pelo gráfico da OMS, a obesidade infantil, que soubesse a importância do tema e de como lidar com um “pacientinho” nesta situação; como orientar a família sobre hábitos higiênicos e dietéticos e sobre as complicações que um gordinho pode ter.

Sobre o estupro: era uma mulher que lhe chegava ao PS com relato de ter sofrido, há 2 horas, um estupro e eles queriam saber toda a propedêutica médica sobre essa paciente. Bastava você acolher a mulher e fazer todas as profilaxias, orientações e exames necessários para esse caso. Muito fácil. Aqui entra outra dica: sempre vai cair violência doméstica ou sexual na prova. SEMPRE! Ou seja, você que vai fazer essa prova, estude isso.

Como se vê, nada de outro mundo.

Para passar na primeira etapa, era necessário fazer 77 pontos do total de 150 (100 da objetiva e 50 da discursiva). Pouco mais que 50%.

E O resultado? Passei?!

Sim, passei. E foi um sofrimento como já conto a seguir.

Passei, porra... passei caralho... passei, miseraaaaaa!!!

O gabarito provisório da prova objetiva foi liberado dias depois da realização da prova. Como já disse anteriormente, eu estava confiante, mas ao abrir o gabarito, me decepcionei. Tinha marcado apenas 63 ou 64 pontos de 100 questões. Eu, sinceramente, esperava algo entre 70 e 80, mas eram apenas 60 pontos. Tinha muita questão mal elaborada e com respostas erradas que eles deram como correta no gabarito, com equívocos bizarros e todos nós, participantes, fizemos muitos recursos, muitos mesmo e, com isso, quando saiu o gabarito definitivo com as correções, cheguei a 70 pontos, foram 6 pontos que os danadinhos iam tirar de mim. Com isso eu fiquei bem mais tranquilo só esperando o resultado da prova discursiva que demorou bem mais tempo para sair. Quando saiu o resultado da prova discursiva, foi uma “festa”. Fiz 35 pontos, totalizando 105 pontos no total. Passei com muita folga. Valeu, Inri Cristo!

Que Deus ajude seus pacientes!
Logo depois de darem o gabarito final, liberaram o resultado final da prova teórica e já abriram inscrição para a prática. Fui correndo me inscrever!

É isso. Nos próximos posts devo falar como foi a prova prática. Foi a mais foda de todas, ao contrário das outras edições.


To sir, with love.

Pequena homenagem aos mestres do Medcel e Medcurso, sem esses caras a tarefa de passar nessa prova seria ainda mais árdua. Bom, poderia citar o nome de muitos outros aqui, todos eles me ajudaram bastante, mas esses ai fizeram história.

Obrigado aos doutores:

Vinícius, o cara mais empolgado da pediatria
Flávio, o cara da pediatria que tem mnemônicos mais fodas (citomegalovírus = central, toxoplamose = total... hahahh👍)
José Paulo, o mais foda da medicina intensiva. Foda, foda, foda, foda. "Aprendi" distúrbios ácido-básicos com ele.
Germano da cárdio.
Jader, o gaúcho da ginecologia
Fabrício, o cara da pneumologia. Alguém ai conhece o mnemônico Mario Tecoti? 🙋
José Américo, o cara da cirurgia abdominal. Vi o Dr Américo num curso em SP e tive o prazer de cumprimentá-lo. Humilde e gente boa.
Flávia, a "mestra" dos antibióticos
Fabio, o cara da GO e da epidemio.
E, claro, Dr Mario Brochini, a louca da GO. Abaixo, um vídeo que foi feito na época de sua morte. Quem é das antigas vai se lembrar dele.😢






Gostou? Compartilhe!




sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Revalida 2016, parte 1


Finalmente está chegando o grande dia. Venho estudando, em média, 8 horas por dia. Sei que deveria estar estudando bem mais do que isso. Faltam apenas 4 dias para a grande prova e acabei de chegar, em São Paulo, da Bolívia, depois de deixar todos os papeis prontos para, finalmente, pegar o diploma bolivicong para, depois, revalidar, caso eu passe na prova.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Faltam dois dias para a prova, já não sei se devo continuar estudando ou se simplesmente deixo tudo como está. A impressão que tenho é que já não há mais o que ler ou o que rever; e isso é bom. Sera?! Medo, mãe, medo!

Tem como adiar mais umas semaninhas?


----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Hoje, sábado, e amanhã é a prova. Não passarei a noite em casa, daqui a pouco vou a um hotel ao lado da faculdade onde a prova será feita. Ontem passei por lá, confirmei o endereço e a distância entre minha casa e a universidade, localizada no Bom Retiro, no centro de São Paulo. Mesmo sendo num domingo, a prova, não quero correr o risco de usar o metrô (vai que dá pane ou tem greve) ou ir de carro que pode quebrar ou pegar um engarrafamento, o que não seria nenhuma novidade nesta cidade cheia de imprevistos.

Vou deixar o notebook em casa e, portanto, não vou ver mais vídeos ou os resumos nele contidos. Dá uma vontadezinha de leva-lo, mas sei que não se estuda antes da prova; de qualquer maneira, vou levar meus resumos do caderno. 
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Hoje é domingo, dia 11 de setembro. Foi um dos dias mais importantes de minha vida. Finalmente fiz a tão esperada prova do Revalida. Esperei por seis anos por essa prova, mais de dois mil dias esperados por essa prova. 

Foram oito horas estipuladas para a realização, mas usei pouco desse tempo. Foi cansativo, principalmente a segunda prova, a discursiva. Outra hora entro em detalhes sobre a dificuldade de sua realização ou sobre os aspectos técnicos. Agora, vou falar de como foi minha visão de um quase médico cheio de expectativas, pressão, medo de dar errado, pressão, ansiedade, pressão... mais pressão.

Acordei cedo, tomei um café da manhã bem reforçado; um queijo quente com suco de laranja e 2 (DOIS) copos grandes cheios (CHEIOS) de café. Cheguei a faculdade as sete horas da manhã, uma hora antes do início da prova. Passei por detector de metais, fui encarado por policiais federais, checaram meus documentos e entrei na sala onde faria a prova. Cadeira dezessete. La estava meu nome. Que Inri Cristo me ajude!

Não adianta vir me pedir ajuda. Devia ter estudado mais!
As oito horas em ponto, depois do "apito inicial", a prova é aberta por mim e começo a respondê-la. Foram 100 questões terminadas antes das onze horas da manhã. Fui o primeiro da sala a sair. Sai feliz. Sai com a sensação de que havia dado o meu melhor, de que havia feito tudo o que poderia ter feito, mas não ali sentado respondendo a prova, e sim desde o início, desde quando abandonei a minha vida, meus dois empregos concursados, negligenciei minha família, em especial, minha filha... enfim, a velha ladainha. Mas, sim, fiz o que pude e me sentia bem comigo mesmo.

Quero nem ver saporra de prova.
Almocei no hotel um “prato feito” (mal feito, aliás). Deitei e fechei os olhos, queria esvaziar a mente e, sabia, a próxima prova, discursiva, seria a decisiva para o meu sucesso ou meu fracasso. As quinze horas, começo a prova. Ao meu lado, as mesmas pessoas (a maioria estrangeiros cubanos e bolivianos). Minhas mãos suavam e raramente fico nervoso desse jeito, mas dessa vez fiquei. Fechei a prova e olhei para o teto por uns segundos, precisava retomar o controle; respirei fundo e abri a prova de novo. Olhei todas as questões (cinco longas questões) antes de começar a responder. Ri comigo mesmo. Naquele momento, soube que me daria bem, bastasse manter a calma e expressasse tudo o que sabia.

Cerca de 16h30, acabei a prova. Parece que mil quilos de peso caíram de minhas costas. Descia os degraus, da universidade, leve. Sentia um nó na garganta. Queria abraçar alguém (oi?), queria falar com alguém, mas estava sem celular e não conhecia ninguém ali. Havia muita gente lá fora, a maioria acompanhante de pessoas que vieram fazer a prova e alguns que já haviam terminado. Podia ouvir algumas queixas das dificuldades e pequenos debates sobre o que deviam ter ou não respondido. Eu só conseguia ver o horizonte. Os prédios da cidade de São Paulo ali na minha frente. A selva de concreto. Me lembrava de quando sai daquela enorme cidade para me mudar por um bom tempo à Bolívia e não saberia quando ia voltar e, agora, estava quase terminando. Quase.


Fui pegar o metro e, ali, outro filme. Uma sensação muito intensa de dever cumprido tomou conta de mim. Parece que alguém chegou até mim e disse, no meu ouvido, que tudo tinha dado certo. Nó na garganta de novo. Pensei na minha mãe e na minha filha e no quanto deveriam estar orgulhas de mim. Eu estava.



Gostou? Compartilhe!




Amigos

São os irmãos que escolhemos.

Nessas últimas semanas, recorri a meus velhos amigos em busca de ajuda. Os gastos são tantos que somente o povo de casa não dá conta de me ajudar.

E descobri que tenho muito mais amigos do que pensei. São cerca de 15 mil reais somente para pagar o internato e a Prova de Grado. Na minha atual situação, isso é muito dinheiro. Então passei a recorrer aos amigos. Os velhos companheiros do SAMU, onde trabalhei por 12 anos, se propuseram a me ajudar. Fiz uma rifa de TABLET para juntar mais uma grana e meu velho amigo de infância me deu uma ajuda que praticamente salvou minha vida. Valeu Nei. Te devo mais essa!

Domingo é dia das mães (hoje é sexta, dia 06/04/16) e minha mãe, que está em SP, esta me matando de saudades, parece adivinhar o que se passa comigo. Ligou-me. Disse a ela que estou bem, mas ela sabe, de alguma maneira, que as coisas estão foda demais. Nesse momento, só queria um abraço dela ou de minha pequenucha, que faz tanto tempo que não vejo. Mas, ao menos, me sinto abraçado por meus amigos que, até de uma maneira surpreendente, estão a me ajudar. E fazem isso por um motivo que me deixa ainda mais surpreso. Dizem acreditar em mim, dizem que eu vou conseguir e estão apostando suas fichas nisso. E eu duvidando de mim mesmo. Ah, os amigos! São poucos, e não têm preço!

 Um breve resumo de minha situação 

Resumo 1: Finalmente acabou a província. Já tem quase um mês que tento dar entrada a prova de grado aqui na Bolívia, mas está difícil. O Revalida em breve abrirá inscrição e não quero perder de fazer a prova esse ano.

As dificuldades são provenientes da universidade e da papelada que exigem para poder fazer essa tal prova. De qualquer maneira, nos próximos dias eu devo finalmente dar entrada nessa prova que é última coisa que devo fazer na Bolívia.

Resumo 2: Hoje acordei com a notícia de que o revalida abriu inscrição. Entrei no site do INEP e, de fato, abriu. Meu coração dói porque nem dei entrada no grado ainda e, para fazer a prova, precisa de diploma e a previsão para que eu o receba é de uns 3 meses.


Resumo 3: Contratei um advogado. Isso mesmo. Contratei um advogado para poder fazer a prova do Revalida ainda esse ano. Mil reais para tentar não ficar de fora da prova mais importante para quem estudou fora e precisa revalidar o diploma (leia aqui e entenda o que é o Revalida). A ideia é entrar com uma liminar na justiça, já que me formei e estou preso as burocracias bolivianas. 

Resumo 4: A Advogada, Dra Sara, conseguiu a liminar favorável para eu poder fazer a prova. Estou muito feliz com a notícia que saiu poucos dias antes da realização do certame. Agora resta estudar muito e conseguir passar nesse bendito exame. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...