quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Erro médico e morte de duas pessoas inocentes - I

Fala-se tanto da gloriosa medicina brasileira. E ultimamente, nas redes sociais, é implacável, por parte dos médicos brasileiros, a busca por notícias de erros médicos cometidos pelos profissionais estrangeiros do “Mais Médicos”. O que nunca se viu, por parte dessas mesmas pessoas, foi escrachar as deficiências da formação médica das universidades brasileiras. Colocam diária e sistematicamente postagens de prescrições que consideram absurdas, algumas realmente absurdas, outras nem tanto e devo dizer que já vi prescrições de médicos brasileiros tão horrendas e bizarras quanto (afinal, meus 10 anos na enfermagem me serviram de algo). Hoje, fazendo medicina na Bolívia e acompanhando todas as notícias que chegam do país do carnaval, venho questionar (com fatos) a tão maravilhosa medicina brasileira.

Primeiramente, quero deixar claro (para quem não sabe) que sou a favor do Revalida, que sou contra o Mais Médicos como ele é e que acho essa contratação de cubanos uma medida eleitoreira e de financiamento da ditadura cubana. Dito isso, vou explanar do porquê de questionar a medicina brasileira contando duas histórias absurdas de erro médico cometidas por profissionais formados em excelentes universidades brasileiras. A primeira história, conto neste post, a segunda eu conto depois. Vamos a primeira:

Há poucos dias, morreram duas pessoas da família de MT. Um, seu pai (avô, na verdade, mas ela o chamava de pai por ele a ter criado) e o outro sua irmã de 20 anos que tinha Lúpus (LES). Ou seja, num intervalo de menos de um mês, a mãe da MT perdeu o pai e a filha.

O avô da MT tinha enfisema pulmonar e, por consequência, insuficiência cardíaca. Vinha estável dentro de seu quadro já complicado, mas vinha estável nos últimos dias. Teve uma piora e foi encaminhado a um hospital da zona leste de São Paulo (um hospital escola de terceiro nível, novo e administrado pelo Estado e uma associação) onde foi diagnosticado com edema pulmonar (EAP) (agua no pulmão). Ali, ficou 3 dias, quando teve alta e, na entrada de casa, quando retornava da alta, subindo as escadas para seu quarto, morreu. Havia sido atendido por dois médicos do hospital; a primeira, o mandou para a semi intensiva e ordenou que ele devia ficar lá por, no mínimo, sete dias. Dois dias depois, ao ser reavaliado por um outro médico, este o liberou de alta, afinal, na cabeça gorda dele, se o EAP já tinha “secado”, já podia ir para casa. Não precisa ser um gênio da medicina para saber que esses pacientes complicam seu quadro por algum fator estressante; pode ser uma infecção (muito comum) ou um infarto, p. ex.. Nada foi investigado; trataram o EAP isoladamente com diuréticos e o mandaram a casa. Não vou entrar em detalhes técnicos aqui, mas afirmo que nunca, jamais, é aceitável liberar um paciente e ele morrer cerca de 30 minutos depois e pela doença que estava sendo tratada. Isso não é fato isolado; quem lê minhas histórias sabe que fui técnico de enfermagem, e cansei de ver pacientes morrerem por negligência e por erros escabrosos e nunca, jamais, vi sequer alguém falar qualquer coisa, postar qualquer frase de indignação em “rede” ou questionar validade da formação médica brasileira. Já com os cubanos...

Sobre esse caso, conversei com um médico brasileiro pela “chat” do Facebook; vejamos, agora, a mais pura tentativa de manter o corporativismo mesmo diante de argumentos irrefutáveis de minha parte:

(EU) Lembra aquela moça que te falei que tinha uma ulcera na perna? Morreu, e foi um erro médico escabroso de médico formado numa das melhores universidades brasileiras.
21 de novembro de 2013 17:27
(ELE) Que erro
(EU) Depois eu vou postar num blog que tenho e você lê...é uma longa história que abreviou a vida de uma moça de 20 anos... e, antes, há 20 dias atrás, o pai da mãe dessa menina que morreu, também morreu por um GRAVE erro médico, ou seja, a mulher perdeu a filha e o pai em 20 dias por erro médico
(ELE) Conta aí cara
23 de novembro de 2013 16:26
(ELE) me fala aí sobre o erro
(EU) Então... eu vou postar no blog, mas já vou adiantar algumas coisas aqui: O pai de minha noiva (é avô, na verdade, mas foi ele quem a criou) tinha cor pulmonale (CP) devido enfisema; acontece que nos últimos dias antes de morrer, teve uma crise de dispneia e foi levado ao hospital (um hospital geral novinho, do SUS). EAP. Ficou lá no primeiro plantão, uma médica atenciosa que já o internou na semi intensiva; ele deu uma baita melhorada, mas necessitava de cuidados. O médico seguinte que pegou plantão, tirou ele da semi e mandou pra retaguarda, da retaguarda, já no dia seguinte, mandou para casa. Alta. Quando ele voltava para casa, subindo os degraus de sua casa ao lado de duas filhas (uma delas, mãe de minha noiva), perdeu a consciência e morreu. Morreu nos braços das filhas.
(EU) Porque recebeu alta desse segundo médico, sendo que a primeira já havia dito que ele devia ficar na semi ao menos 10 dias??? Tá... entendo que o segundo pode mudar a conduta, mas mudar assim, pondo a vida de uma pessoa em jogo? Sabe o que é foda, cara? Isso acontece todos os dias e não é culpa do sistema sempre; é culpa de profissionais de saúde mesmo. Claro que resumi a história; deve detalhes ai que só quem é paciente e pobre sabe como é. Infelizmente, a porcaria do sistema de saúde brasileiro é uma bosta, mas os profissionais, em boa parte dos casos, também é. Não por falta de conhecimento, mas por desleixo mesmo, por falta de empatia... a droga do conhecimento não vale nada sem isso e isso é só o começo... o pior mesmo foi a morte da Quésia, filha dessa mesma mulher que, havia 20 dias perdia o pai, agora perdia a filha; e por uma negligência médica também, mas essa história fica para depois..
(EU) leu? ta ai?
(ELE) Nessa história aí do senhor, não consigo ver onde o cara errou. Eu passo visitas cara e temos que dar altas para muitas vezes liberar o leito para alguém que precisa mais, mas isso tem que ter critério. Esse paciente devia ter uma baita risco cardiovascular, se ele foi compensado do ponto de vista cardíaco, poderia sim ter tido alta; deixá-lo internado não mudaria muito a história e poderia expô-lo ao risco de pegar uma infecção.
23 de novembro de 2013 18:10
(EU) Se ele tivesse sido compensado, não teria feito outro EAP na porta de casa. Onde já se viu um médico dar alta, em qualquer circunstância que seja, esse paciente morrer meia hora depois da patologia que ele vinha sendo tratado, e essa conduta ser correta?
Dentro desse pensamento do "liberar leito" (que nem se aplica aqui, pois conheço muito bem esse hospital, trabalhei lá e é um hospital fechado, sem PS e o que mais tem ali é leito), haveria um paciente mais grave que poderia ser tratado "mais" que esse senhor??? Um que morreria nos próximos 15 minutos, então? Porque ele morreu 30 minutos depois! Isso é inadmissível, cara... ele liberou o cara com edema pulmonar estabelecido sem finalizar o tx (tratamento), simples assim. Você falou de risco de infecção... nem precisa ser um gênio para saber que estes pacientes descompensam, na imensa maioria, devido a alguma pneumonia, ITU ou qualquer outra coisa que passaria desapercebido num cara normal, mas num paciente CP não; nem isso foi investigado. Trataram o EAP isoladamente e você vem me dizer que estavam correto? Que é culpa do sistema? Fala sério, Ev*** (nome dele), esses erros se tornaram tão lugar comum que já faz parte das condutas médicas; deviam protocolá-los... sistematizar isso... colocar no rol das condutas aplicadas aos pacientes do SUS. Cara, quando eu for médico, não vou ser um bost* desses não.
24 de novembro de 2013 12:49
(EU) Só pra finalizar essa história. Você ainda acha que a conduta do médico foi correta?

Ele não me respondeu mais.


Depois eu volto para contar sobre o erro que culminou na morte, 20 dias depois, da neta deste mesmo senhor que morreu tragicamente. Agora imaginem para a mãe dessa moça, perdê-la, depois de, 20 dias antes, ter perdido seu pai. Alguém ai ficaria tranquilo em saber que perdeu o pai e a filha, em menos de um mês, por erros médicos?!

Infelizmente estão banalizando a saúde; o sistema e os profissionais; é minha opinião. Felizmente ainda há muitos médicos empáticos, dedicados, com muito conhecimento e que trabalham em prol da vida e, para o paciente, isso é o mais importante. O paciente não quer saber onde ele se formou, quer ser tratado com dignidade pelo sistema (que é uma merda) e pelos profissionais, mas que nem sempre correspondem a esta necessidade; e isso não se aprende nas universidades, sejam elas cubanas, brasileiras ou bolivianas, simplesmente. Ainda não há vestibular ou Revalida para avaliar a capacidade de agir como um ser humano.
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